domingo, 22 de março de 2009

Mulher-Amante

Ele se despiu e a abraçou lento e crepitante, como uma chama. Ela se sentiu queimada, se sente queimada, é como se todo o mundo ao seu redor se tivesse transformado em sol, em vulcão, em fogueira.
A mão esquerda do homem reluziu. Uma faixa de ouro, estreita, reluziu. Por que estava ali, sob o peso do corpo do homem, sendo feliz, sendo mulher, sendo profundamente reverenciada, se não podia ser dona daquela faixa dourada que reluzia?
Vagabunda. Mal-amada. Filial. Traidora. Baixa. Ridícula. Incompetente. Eram esses os nomes, os títulos, os poderes investidos a essa mulher-amante, que agora estava frouxa de prazer nos braços do homem. Mas ninguém sabe. Ninguém nunca vai saber. É uma paranóia permanente, é um olhar-se no espelho pela manhã com medo da própria sombra.
Ela ama esse homem como se fosse esse o último dia da humanidade, ela se veste apenas para que ele a dispa, ela se maquia apenas para que a saliva dele borre as tintas, ela transpira apenas para que ele enxugue o suor com a própria pele. Isso para ela é religião.
Mas a mulher-dele está esperando, a mulher-dele preparou o almoço, a mulher-dele acordou com medo do raio que caiu no portão de madrugada e ele a abraçou pelas costas, e fizeram amor até o dia irromper e dormirem os dois, um dentro do outro. A mulher-dele é tão amarga que ela, mulher-amante, como pode dizer, se sente como um dia nublado. A mulher-amante é um dia nublado e chuvoso: bela, friamente bela, de formas úmidas e cinzentas, protegida, defensiva, e sempre ameaçando explodir em lágrimas amargas, geladas, e erguer as saias de meio mundo com a força de sua ventania. A mulher-amante é, antes de tudo, uma poderosa força criativa, talvez mais forte que o calor do sol que traz dentro do peito.
A mulher-dele ilumina os ambientes, é um dia de sol; a mulher-amante traz consigo uma nuvem de talvez.
Ninguém jamais entenderá. Olhar os traços do homem e ver neles seu passado, seu presente e seu futuro, o futuro do qual ela sente tão ansiosa saudade. Caminhar pelos corredores da casa do homem e ver seus próprios passos, suas próprias roupas espalhadas aqui e acolá, ouvir o som dos seus gemidos agudos, sentir o seu próprio perfume no ar. Mas a mulher-amante desce da cama com as pernas vacilantes e o corpo dissolvido pelo orgasmo interminável, desce da cama que o homem reservou para eles, porque na cama de lençóis azuis de toda noite ela não pode deitar. Desce da cama e começa a caminhar, os passos vacilantes da mulher-amante pisam os passos dela, imitam os traços dela, querem ler os livros dela e penetrar com as agulhas dela. A mulher-dele está pela casa, sua presença é lancinante como uma de suas agulhas.
Seria simples se não fosse tão complexo. A mulher-amante não deseja ser a mulher-dele. Deseja-se a si mesma, como se esse vulto nu, refletido no espelho do motel, ajudasse a revolver sua própria essência, essa essência uterina que o homem, esse ser que ela ama como quem ama a própria ruína, insiste em empurrar para mais e mais fundo, a cada vez que adentra o corpo dela com essa indiferença tão humana.
"Você sabe que eu te amo", e a ela ouve isso com profunda resignação. Ele sempre dirá que a ama, assim como jamais sairá de dentro do corpo dela ou da casa da mulher-dele, se não for à força de uma revolução.
Tem o melhor das duas, porque as duas mulheres são o melhor que podem, por ele.
Nem a mulher-amante. Ela não sai de sob o corpo dele se não se rebelar. Mesmo sabendo que nunca farão contas juntos. Mesmo sabendo que nunca farão planos juntos. Mesmo sabendo que nunca tricotará um sapatinho branco para colocar sobre a mesa dele no dia em que o Beta-HCG der positivo. Mesmo sabendo que, se permanecer nesta posição, chegará aos trinta anos na mais profunda solidão.
Ela se posiciona em subjugação. Ele ajoelha-se na mira do corpo dela, ela abaixa a cabeça, mãos unidas em frente à testa, fecha os olhos e aguarda o disparo. É só isso que lhe resta.
Ninguém deve abrir a boca para sentenciar uma mulher-amante. Ela entende esse disparo como uma injeção de vida, e abraça sua condição com lágrimas nos olhos e profundo amor, como quem abraça a própria morte. E para isso, é preciso muita coragem.

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